DAN Medical Frequently Asked Questions

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Pânico e Estresse Pós-Traumático

As consequências psicológicas de um acidente de mergulho

Analisando um Incidente publicado originalmente na revista Alert Diver
Por David F Colvard MD
O mergulhador é um homem de 48 anos de idade com quatro anos de experiência de mergulho e 10 mergulhos realizados antes do incidente. O seu histórico médico incluía hipertensão e doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), mantida sob controle por meio de remédios. Ele também tinha uma prescrição de pílulas para dormir para serem usadas quando necessário.O mergulhador estava participando de uma viagem em uma ilha popular do Havaí. A cerca de 10 minutos do início do seu primeiro mergulho, o seu regulador falhou, com o bocal se separando do segundo estágio. Ele achou que o segundo estágio ainda estava na sua boca — embora ali restasse somente o bocal. Então, quando não conseguiu respirar, supôs que o primeiro estágio estivesse com problemas. Ele tinha acabado de exalar e estava pronto para fazer uma inspiração. Então entrou em pânico porque achou que não havia ninguém próximo o suficiente para compartilhar ar com ele, e se encontrou sozinho lutando contra a tentação de aspirar água. Ele ficou sem ar por cerca de 25 segundos antes de se lembrar que possuía um cilindro de reserva. Usou-o para respirar duas ou três vezes antes de conseguir alcançar o segundo estágio reserva do seu dupla.

O mergulhador tinha mandado o regulador para manutenção havia pouco tempo e aquele era o seu primeiro mergulho desde então. Ele teve sorte por ter comprado o cilindro de reserva cerca de um ano antes; a situação podia ter sido muito pior. Ele era médico em um pronto-socorro e conhecia as consequências de se encontrar despreparado.
O mergulhador ficou "transtornado depois do evento e desde então", quando provou efeitos posteriores ao incidente. Ele passou a ter dificuldades para dormir devido a repetidos pesadelos e tinha flashbacks da falta de ar.O mergulhador passou por uma falha relativamente pequena do equipamento, devido a uma separação inesperada entre o bocal e o regulador. O regulador possuía uma abraçadeira patenteada para o bocal com uma trava de came. Depois de refletir sobre o incidente, ele concluiu que a trava não tinha sido reposta depois da manutenção. A respeito da abraçadeira, um representante do fabricante afirmou: "A sua durabilidade é comprovada e não temos conhecimento de nenhum problema relacionado com ela". O técnico de uma operadora de serviços de manutenção de equipamentos de mergulho me disse que ele geralmente usa uma abraçadeira de nylon com lacre como última etapa na manutenção de um regulador para ter certeza de que o bocal está preso ao segundo estágio. É possível que a abraçadeira não tenha sido fechada corretamente ou que o técnico simplesmente não tenha colocado a trava de came.

Se o bocal não estava preso de modo seguro ao segundo estágio do regulador, então um movimento vigoroso ou rápido da cabeça poderia ter puxado a mangueira do regulador com força o suficiente para soltá-lo do segundo estágio. Além disso, se o bocal estava preso frouxamente, também é possível que ele estivesse permitindo a entrada de água. Isso pode ter motivado uma exalação mais forte para remover a água, o que pode ter deslocado completamente o bocal. Parece pouco provável que uma inalação normal tenha causado a separação, visto que ele já estava mergulhando havia 10 minutos sem problemas.

Quando os mergulhadores retiram os seus equipamentos da operadora após uma manutenção, eles deveriam inspecioná-los e revisar o serviço com o técnico que realizou o trabalho. Se esse mergulhador tivesse inspecionado o seu regulador, ele provavelmente teria notado que o bocal não estava preso corretamente ao segundo estágio.

O primeiro evento adverso que o mergulhador enfrentou foi uma aparente falha do equipamento. É provável que tanto o seu primeiro quanto o seu segundo estágio ainda estivessem funcionando. Ele não tentou respirar diretamente do segundo estágio sem o bocal, nem tentou usar o seu segundo estágio alternativo, supondo que possuísse um.

Em um estudo com mais de 12 mil mergulhadores recreativos em 2000, cerca de 40% dos homens e 33% das mulheres relataram ter tido problemas com um regulador com vazamento ou em free-flow em algum momento no seu histórico de mergulho.1No entanto, apenas 5% dos homens e 3% das mulheres relacionaram a sua primeira experiência de pânico ao problema. A separação entre o bocal e o segundo estágio não foi especificamente pesquisada.

O mergulhador pensou, incorretamente, que o seu primeiro estágio tinha falhado e chegou à conclusão precipitada de que estava sem ar. A pesquisa também revelou que 40% dos homens e 27% das mulheres relataram ter estado "com pouco ar ou sem ar" em algum momento do seu histórico de mergulho. Contudo, apenas 18% dos homens e 7% das mulheres relacionaram a sua primeira experiência de pânico no mergulho com o fato. A DAN reportou que aproximadamente 41% dos mergulhadores que sofrerem fatalidades no mergulho tinham ficado sem ar respirável. Embora ficar sem ar possa ser fatal, a maioria dos mergulhadores lida com situações de falta ou esgotamento do ar sem incidentes.

O segundo evento adverso que ocorreu foi a separação entre o mergulhador e o seu dupla. Ele não achou que os outros mergulhadores estivessem próximos o suficiente para lhe fornecer ar tão rapidamente quanto era necessário. Se o seu dupla não estava ao alcance das mãos, o mergulhador estava efetivamente fazendo um mergulho solo. O ar de reserva foi um substituto precário para um dupla que poderia ter oferecido imediatamente um regulador em perfeito funcionamento e ajudado o companheiro a se acalmar.

O relato do mergulhador sobre ter ficado "transtornado depois do evento e desde então" sugere um transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Ele enfrentou uma ameaça de morte ou lesão grave e continuou a reviver o evento persistentemente em pesadelos traumáticos. Ele também evitou estímulos potencialmente angustiantes depois do evento: não procurou ajuda profissional porque estava "ocupado demais", e presumivelmente não mergulhou mais desde o incidente. Ele também prova emoções negativas persistentes relacionadas ao trauma e tem demonstrado alterações negativas na cognição e no temperamento, com uma tendência persistente a culpar outras pessoas (por exemplo, o técnico que fez a manutenção do regulador) por terem causado o evento traumático. Os seus sinais e sintomas estão abaixo dos limites para a diagnose de um TEPT, mas ainda assim são profundamente angustiantes para ele e requerem ajuda — quer ele decida voltar a mergulhar ou não.

Ao longo dos anos, tenho ajudado mergulhadores com problemas como este trabalhando com eles seja na água, por telefone ou por e-mail por meio da terapia cognitivo-comportamental. A terapia inclui a instrução em respiração diafragmática para relaxamento (disponível gratuitamente em DivePsych.com) e exposição e prevenção de resposta progressiva in vivo.

Geralmente, mergulhadores traumatizados evitam lidar com esse tipo de problema até que as circunstâncias os motivem a fazê-lo, e então eles voltam a mergulhar. Outros abandonam o mergulho autônomo e passam a fazer apenas mergulho livre ou outras atividades que lhes causem menos ansiedade.
1. Colvard DF, Colvard LY. Um estudo sobre o pânico em mergulhadores recreativos (A study of panic in recreational divers). The Undersea Journal, 2003; Q1: 40-44.O mergulhador de que trata este artigo estava filmando o mergulho quando o incidente ocorreu. Assistir ao vídeo.


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